11/04/2015

Manifesto


Alguns anos atrás, na aula de Psicologia do Desenvolvimento, o professor Emílio Salgueiro falava na banda desenhada do Calvin & Hobbes. Esta banda desenhada sempre me acompanhou na minha infância (ainda hoje adoro e leio). Falava com tanto encanto sobre a importância de sonharmos, da melhor fase da nossa vida, dos amigos "imaginários" e de crescermos. Hoje em dia, sou adulta, emociono-me a ver uma "tirinha" (como os brasileiros se referem ao quadradinhos) que ganhou vida na animação e infelizmente penso isto:

"Quero gritar contra as paredes, as árvores, as pessoas, as sombras, o ar, contra todos e contra nada. É injusto! Porque é que os meus sonhos não contam?"

Sabem do que falo? Sabem do que vos alerto? Querem saber? Então vou vos dizer.
Enquanto a juventude está preocupada com o destino de um dos membros da banda dos One Diretion, com os tutoriais de maquilhagem, com a Moda Lisboa, com a eminente homossexualidade do Cristiano Ronaldo, com os saldos nas diversas lojas ou outras superficialidades, eu estou deveras insegura quanto ao meu futuro (não estou com isto a menosprezar a vossa maneira de encarar a vida ou as vossas vicissitudes, acreditem).*

Com isto não quero dizer que as vossas “preocupações” não sejam sentidas ou verdadeiras, mas não passam de “preocupações” que são passageiras, típicas da idade e têm obviamente de passar por elas assim como toda a puberdade ultrapassa. Mas hoje temos tempo para passar por elas?

Não. Não nos dão esse benefício da dúvida (infelizmente). Temos quase de nascer duronas, más, vingativas e ambiciosas. Caso contrário, somos uma nulidade , frágeis e está incorreto. O nosso futuro só é bom e produtivo, se colocarmos algo de nós nele.

Se há algo que toda a gente devia estar orgulhoso é de ser um individuo emocional e racional. Sem o nosso lado mais vulnerável, verdadeiro e puro, não passamos de máquinas.

Nascemos, crescemos um pouco, somos curiosos e irrequietos na creche ou na escola e dão-nos medicação para estarmos imóveis, controláveis e confirmados com o que o futuro e o padrão social nos autoriza. Não há lugar na sociedade para as crianças criativas, com um pensamento “fora do habitual”, dinâmico e irreverente. Estamos a condenar o futuro dos nossos filhos. As avaliações psicológicas…muitas delas (erradamente) são enviesadas, são deturpadas e com o único propósito de sermos o produto do que é controlável, padronizado e aceite no mercado de trabalho, na sociedade e no governo. Raramente esse aditivo serve para melhorar a vida dos pais, criança e demais envolvidos, mas existem casos desses e ai a medicação é bem aplicada, com resultados favoráveis para o menor e família envolvida (e ainda bem).

Não há lugar para os inovadores, para os estudiosos, para as criaturas que se preocupam com o amanhã, melhorado do hoje e isso irrita-me. Penso muitas vezes que devo acordar e consciencializar as sementes do futuro, os jovens. Eles têm de saber o que lhes espera, as horas que vão perder da sua vida a estudar, a interessar-se e o amor que eles vão gastar do que mais gostam e se interessam para no fim, não valer nada.

O meu esforço e dedicação simbolizam apenas um “canudo” que vou olhar e pensar: “O que é que eu faço com o que aprendi, as horas que não dormi, os dias que não vi a luz do sol, não namorei, não sorri e que passei dias enfiada em casa a estudar, sem explorar o que me rodeia? Porque é que não nos dão uma hipótese? Só sou alguém… e essas horas, dias, meses e anos só vão valer uns minutos de escuta se eu conhecer fulano A e B que está no meu futuro local de trabalho? O meu saber tem de valer algo, a mim, a ti, na sociedade em geral”. 

Aprendam a dizer "não", repetiam isso ao trabalho não remunerado ou ao Bullying no trabalho e ao facto de não terem direito a um futuro que merecem.

Desculpem-me este manifesto, a estas horas, fora de dias, mas não aguento. Cada vez mais não me conformo, não acredito e não quero acreditar. Se hoje em dia vivenciamos isto, estou deveras preocupada com o amanhã dos mais jovens. Afinal de contas…eu também sou jovem, ainda tenho muito sangue que me corre nas veias e muito desejo de crescer e conquistar os meus desejos mais profundos. Aposto que também vocês estão reticentes e eu quero o melhor para o meu/vosso “amanhã”.

Afinal de contas um diário, não seria um diário sem desabafos verdadeiros.


Um beijinho rebelde e fora de data de marcação…mas tinha de ser,


Alice.

P.S- Na Terça-Feira (dia 21/04/2015), eu calo-me ;) 

*- Não se zanguem comigo por estar a referir-me a tutoriais, One Diretion, moda ou o que for...eu também gosto de mil e uma coisas do género, obviamente que respeito qualquer tipo de interesses e gostos. Quis resumir os maiores focos de atenção da atualidade do quotidiano, mas sobretudo na puberdade/adolescência. :) 

2 comentários:

  1. Gostei muito do post e concordo com tudo o que disseste. Não fiques tão desmotivada e vem cá "queixar-te" sempre que precisares!´
    Beijinhos***

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  2. Ainda bem que gostaste. O meu problema é estar demasiado motivada para colocar o quanto antes a "mão na massa" e começar a mudar o meu país, mentalidades e quem sabe o mundo. Obrigada pelas tuas palavras. Beijinhos***

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